O que você leva da quarentena?

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por Mari Sergio

O que você aprendeu ou está descobrindo nesse período?

 

Muito coisa foi dita, escrita, instagramada. O período de reclusão da quarentena abriu as portas para um enxurrada de pensamentos e conteúdos.

Agora que temos pelo menos uma data para nos agarrar, com a promessa de uma volta gradual à normalidade, resolvi pensar sobre os efeitos mais profundos desse admirável mundo novo que foi ficar todos esses dias com menos liberdade.

Tivemos mais preocupações, verdade, mas também tivemos muita coisa bonita por aí e treinamos o olhar para não deixar escapar esses momentos.

Primeiro, eu quero começar dizendo que:

 

“Tudo bem não estar bem”

Eu sei, essa frase foi repetida inúmeras vezes, mas foi um doce lembrete e um convite para se acolher, em um período que todos nós tivemos nossos limites testados de alguma maneira.

Em algum momento dessa quarentena, eu escrevi que ninguém sabe como vai reagir ao impensável. Ninguém sabe exatamente como vai enfrentar os problemas na hora do vamos ver.

No meu treinamento de emergência na Emirates, repetíamos todos os procedimentos até à exaustão, para que eles se tornassem automáticos e tornassem a tomada de decisão mais fácil. Mas os próprios instrutores diziam: esse é o procedimento padrão. Isso é o que você deveria fazer, mas não temos como prever como um ser humano vai reagir a uma situação catastrófica.

E pois é, justo eu que sempre me considerei preparada pra tudo, me percebi despreparada para lidar com os desafios dos últimos quase 40 dias.

Tive um encontro cara a cara com a minha fragilidade, com meus medos.

E me julguei por isso. Me critiquei, me cobrei. Até que eu percebi que tudo bem.

Cada um reage de um jeito. Teve gente que viu na quarentena a oportunidade para produzir loucamente, tirar projetos da gaveta, aspirar lavar e bater bolo tudo junto ao mesmo tempo. Preenchendo com atividades cada buraco.

Teve gente que mergulhou no buraco e tentou se aconchegar lá dentro. Ta tudo bem também.

Cada um tem o seu processo. Não tem certo nem errado. Seja gentil.

Eu fui mais pro segundo time. O que me leva ao segundo pensamento:

 

Pequenos passos, pequenas vitórias

Tiveram dias bons, que eu acordava senhora de mim, com um mundo a conquistar e todo o tempo a minha disposição. Mas também tiveram muitos dias sem essa mesma energia. Sinceramente, quase sem nenhuma energia. E nesses dias, particularmente, o gosto na boca era mais amargo e o aperto no coração mais doído.

Em um desses dias, recebi um texto de uma amiga minha que falava que: “em tempos difíceis, você avança em pequenos passos, faz o que tem que ser feito, mas pouco a pouco. Aspire o pó, escreva uma carta, faça uma sopa”.

Pequenos avanços. Pequenas vitórias. Reconheça-os, celebre-os. Seja gentil consigo mesmo.

Essa ideia de pequenos passos, pequenos avanços me levam ao terceiro pensamento:

 

Força x Flow

Eu sempre acreditei no poder da força. Força física. Força de vontade. Força de caráter. Força. Sempre repeti pra mim mesma: “quero me tornar mais forte” em todos os sentidos.

Agora nesse período, o que eu aprendi é que as vezes a força não faz diferença, ela só te cansa. Você precisa aprender a confiar no fluxo.

Fluxo das coisas, do tempo, do que não está nas suas mãos. Deixar fluir.

A água é mais poderosa do que a rocha. Como diria Bruce Lee “be water, my friend”.

Essa talvez seja a lição mais importante que eu tiro disso tudo. Certamente é que me exige mais.

O quarto pensamento é uma velha crença que foi confirmada:

 

O Esporte te dá senso de comprometimento e resgata a tão saudosa rotina

Sempre encontrei no esporte, na atividade física minha válvula de escape, e nesse período tão conturbado, ele foi de fato minha redenção.

Nos dias mais difíceis, mais incertos, mais tristes, ele foi meu porto seguro e meu lembrete de que “sim, continuamos em movimento, continuamos evoluindo”.

Escrevi mais sobre a minha relação com a endorfina e disciplina aqui.

O quinto pensamento é esse aqui:

 

Arte ainda é o melhor remédio!

Cantar, dançar, poesia, ler, escrever, cinema…

Incrível e inquestionável o poder da arte sobre nossa mente e espírito.

Em um dos meus primeiros desabafos sobre a quarentena e o medo que estava sentindo, falei que encontrei alegria e alivio em cantar, enquanto lavava a louça.

De lá pra cá, a formas de arte que coloriram os meus dias aumentaram e que bem elas fazem.

Meus colegas escreveram sobre como cada uma delas mexe com eles. Temos uma sacada linda sobre poesia do Geraldo, uma sobre rock da Barbara, uma sobre música da Alê, uma sobre sapateado da Mari, a arte da culinária árabe da Ju, sobre o poder de viajar com os livros da Clau Carvalho….

Bendita seja a arte!

Uma reflexão que não podia faltar é sobre:

 

Privilégio

Discutimos muito esse assunto nesse período, até porque ele ganhou novos contornos: Ter uma casa, comida, saúde e uma profissão de que te permite quarentenar é um baita privilégio e nos demos conta disso.

Para mim a melhor síntese desse pensamento foi Casa é refúgio, não é prisão.

Mesmo assim, não é porque você tem seus privilégios, que esse período esteja sendo fácil, isso me leva ao meu próximo pensamento:

 

Cada um está lutando sua própria batalha, seja gentil.

Com você mesmo e com os outros.

Na quarentena, cada um teve seus próprios desafios para enfrentar (e continua enfrentando): filhos (sacadas ótimas aqui, aqui e aqui), dinheiro, solidão, doença, saudade.

Não sabemos o que se passa com o outro. Não podemos usar a nossa régua pessoal para medir a aflição do outro. Cada um tem sua própria batalha e suas próprias armas.

Seja empático e SEJA GENTIL.

E a última reflexão que queria deixar por aqui é

 

Don’t take anything for granted!

Se aprendemos uma coisa, definitivamente, é que o amanhã a Deus pertence.

Planos, compromissos, viagens, casamentos desmarcados. De repente, sem sobreaviso, o mundo parou e tudo mudou.

E isso te fez ter saudades do passado ou fazer planos pro futuro?

Li coisas interessantíssimas nesse sentido, como a sacada da Karen que contava sobre a história dela e a do Matteo sobre o início da Refúgios. Olhamos pro futuro também e tentamos entender um pouquinho sobre como ele será na sacada genial da Bel. Apenas para citar algumas dos infinitos textos incríveis que foram criados nesse período.

 

Pois é,

Em uma imensidão de cursos e conteúdos free, nenhum treinamento foi mais intensivo do que o mergulho em nós mesmos. Na nossa vida, nos nossos pensamentos, nos nossos relacionamentos.

Acredito que todos sairemos dessa quarentena com nosso diploma “eu sobrevivi a uma imersão em mim mesmo”.

Baita aprendizado!

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sobre o autor

Marianna SergioCorretora associada

Paulistana, passou sua vida inteira no bairro de Moema e arredores, considerando o Parque do Ibirapuera uma extensão da sua casa. Depois de literalmente dar algumas voltas ao redor do globo, voltou a...

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