MEMÓRIAS DE UM LUGAR QUE (AINDA) HABITAMOS

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por Bárbara Tegone

FÁBRICA DE CIMENTOS PORTLAND – RUÍNAS URBANAS PARTE 1

 

Como muitos dos prédios tombados completamente abandonados e que retratam diferentes fases da história da cidade de São Paulo e que são de grande importância histórica nacional, alguns só não estão no chão porque alguém toma conta deles enquanto os donos não decidem sobre o futuro desses edifícios.

Portanto, hoje vou contar um pouquinho sobre a “Fábrica de Cimentos Portland” que é um desses edifícios que foram deixados de lado com o tempo.

Localizada na região noroeste da capital paulista na rua Joaquim Antônio Arruda em Perus, região que até 1867 era apenas uma vila do distrito da Freguesia do Ó.

Dessa fábrica, que hoje está em ruínas, saiu o concreto que construiu Brasília.

 

Fotografia Bernardo Borges _abandonados SP_

 

O vilarejo, batizado Vila Triângulo por causa da forma em que as casas se apresentam, servia de abrigo para as 70 famílias de operários que trabalharam ali e era como um parque de diversões daquela região, e agora está em péssimas condições.

 

Fotografia Bernardo Borges _abandonados SP_

 

Com a chegada de uma pequena estrada de ferro, a Perus-Pirapora (EFPP), com apenas 20km de extensão e inaugurada em 1914 com a finalidade de levar romeiros até a cidade de Pirapora, se abriu caminho para a construção da primeira fábrica de grande porte que se tem na história do Brasil: a Companhia de Cimento Portland Perus, mais conhecida como Fábrica de Cimento Perus.

A Companhia foi então inaugurada em 1924, mas é em 24 de abril de 1926 que a fábrica produz sua primeira leva de cimento.

A importância dessa Companhia é incontestável durante o período de 1926 a 1933, pois era a fonte principal para a matéria prima que iria alavancar prédios, casas, indústrias, tanto na cidade de São Paulo, quanto em outros estados.

Foi então nessa época que o bairro começava a criar, de fato, uma população. Gente de todo lugar começou a chegar em Perus. Portugueses, espanhóis, italianos, e também brasileiros vindos de outros estados e interiores. Homens trabalhavam dia e noite, gente que veio de todos os cantos do Brasil e do mundo, para tentar fazer seu pé de meia na cidade grande.

Naquele tempo, o país costumava consumir cerca de 496.582 toneladas de cimento, onde pelo menos, 125 mil vinham dos fornos de Perus, que foi responsável pela construção de pelo menos metade da metrópole de São Paulo, como o Vale do Anhangabaú, só para citar um exemplo.

 

Fotografia Bernardo Borges _abandonados SP_

 

Mas vamos agora para além da produção, essa fábrica é até hoje o elo que conecta a vida de todas essas pessoas que contribuíram para um pedaço da história desse país, sejam eles caipiras ou gringos. Ali, naquele lugar todos se tornaram os peruenses da fábrica de cimento. E não podemos nos prender apenas nessa trajetória de tantas famílias, a Vila Triângulo foi cenário de diversas reivindicações sociais a favor de direitos trabalhistas a todos esses homens e suas famílias, revelando que ali existia uma comunidade.

É uma pena que tudo esteja abandonado. O que aconteceu nesse lugar foi importante, não só para os moradores, mas em diversos momentos, para o crescimento do Brasil, sendo palco, por exemplo, de uma das maiores greves que durou cerca de 7 anos em plena ditadura militar, e que aparentemente mais ninguém se lembra disso.

 

Fotografia Bernardo Borges _abandonados SP_

 

Sem dúvida, a Fábrica de Cimento Portland Perus é um marco na região de São Paulo e encerrou suas atividades muito recentemente, em 1986, por exigência do Ministério Público devido a sérios problemas de poluição provocada pela fábrica.

Atualmente alguns grupos “pedem” para transformar as ruínas em um Centro Cultural e até em uma Universidade Livre para a região que cresceu e se desenvolveu ao redor da fábrica, e enquanto a prefeitura ainda avalia o pedido, o local já promove alguns eventos como espetáculos de dança e oficinas de grafite.

 

 

*As fotografias foram gentilmente cedidas pelo próprio autor, Bernardo Borges, e estão sujeitas a direitos autorais.

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sobre o autor

Bárbara TegoneComunicação e Cenografia

Estudante das Artes Cênicas desde a infância, viveu muito tempo nos palcos dos teatros e nos shows de rock do seu pai, descobrindo neles sua paixão por cenários e interiores. Decidida a dedicar su...

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