A vida da rua

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Por Rafael Sorrigotto

A rua pulsa.
Como veias e artérias que levam e trazem pessoas e ônibus e carros e motos e bicicletas e vidas. Um sistema complexo que nos garante algo muito além da simples locomoção de um ponto a outro: nos trazem vida. Olhos que nos fitam ao passar, ouvidos não nos deixar pisar sozinhos, olfato nos faz sentir o aroma da chuva que ao cair no asfalto quente sobe como uma brisa leve numa marcha sonolenta e apaixonante. Vida que compartilha interesses, que atrai desapercebidos. Vida que nos acalma e garante uma sensação de segurança. Como se o desconhecido estivesse ali, prostrado a nos zelar, dia após dia.

A rua clama.
Nas palavras do jornalista e poeta Cassiano Ricardo, “a rua, onde cada um de nós é um pouco mais dos outros do que de si mesmo. A rua da reivindicação social, onde mora o acontecimento”. A rua pede esmolas, é passagem, mas também moradia. Pede passagem mais humana; em outras palavras: mais vida. O elevado é zum zum zum de dia e risos, afetos e exercícios que trazem cor e ritmo às noites e fins de semana. E por lá tem muitos olhos! Um espaço democrático, como se brotasse um palco para o convívio tomar conta, um espaço de destaque. Acima da rua, no nível das edificações – ali que devem estar o percurso pedonal e animal. Sob a guarda dos prédios que o cercam, dos olhos que os prédios protegem que passam agora a dar cobertura aos olhos que transitam por lá. Os olhos: grande trunfo da rua.

A rua vibra.
Ela vive de outras vidas e sem elas fica vazia. Poética e literalmente. Basta visitar bairros restritamente qualquer coisa. Pode ser cheio de pompa, ter quantos seguranças privados for. O que traz o conforto e o sentimento de segurança não são olhos pagos. É o quotidiano, que só o uso misto permite. O Centro tem dessas: um prédio residencial do lado de outro comercial na frente de um edifício de garagem que nunca fecha ao lado de uma balada underground quase em frente a um terreno onde funciona outro estacionamento que faz divisa com um chaveiro e uma farmácia. Isso tem um nome: vida. Vinte e quatro por sete. Sempre vai ter alguém vindo na farmácia, ou no chaveiro ou no estacionamento, ou na casa do João, ou na balada underground, ou na kitnet da Maria e suas gatas.

A rua está no Maps, na sola do All Star e no livro.
A escolha é sua de como quer desvendá-la. A alquimia da corretagem mora na seleção cirúrgica da vida mais entrelaçada à teia que já existe num determinado lugar. Um trabalho delicado e lindo. Ajudando, por que não, a tecer novas e dar nova vida à velhas histórias.

É inquestionável a necessidade de explorar melhor o Centro: as periferias já colecionam problemas enquanto a região central – repleta de infra-estrutura – ainda está imóveis vagos e muito potencial. Exemplo disso temos aos montes – Rua Paim. Quem passou por lá há dez anos mal reconhece a rua, hoje cheia de prédios, trazendo nova vida e qualificando comércio e serviços da região. Pra isso é preciso coragem: encarar o novo e explorar o potencial ao limite. A região da Santa Cecília é outro. Anos atrás era só a região com umas partes degradadas, próximo ao Minhocão. Hoje emana vida hype com um bando de cafés e bares estilosos, o que trouxe ainda mais opções de lazer, galerias de arte e deu ainda mais força pro movimento de ocupação das pessoas nos espaços públicos, em especial o Parque Minhocão e a militância do Parque Augusta.

Faz-se urgente pensar a cidade como um ser vivo. Deixar de lados rótulos e reinventar as potencialidades de cada lugar. Isso quem faz não é (apenas) o Estado, mas cada um de nós.

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Rafael Sorrigotto

sobre o autor

Rafael SorrigottoSócio-Proprietário

Arquiteto por formação, corretor por paixão e cozinheiro no tempo livre! Sócio da Refúgios Urbanos, é formado pela UNESP, cursou pós-graduação na FIA Business School, em Negócios do Merc...

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