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Nossas casas e nossas memórias

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por Melanie Graille
Solto-me a pesquisar sobre memória afetiva e infância. Qual o incrível poder dos espaços e sensações sobre nossas memórias daquela época?

Outra noite, antes de dormir, tomada por aquelas usuais insônias de quem não consegue desligar a cabeça, me transportei para o apartamento em que morei dos 2 aos 8 anos, em Buenos Aires.

Na época, morava com meus dois irmãos mais velhos e meu pai havia sido transferido para ocupar um posto na multinacional francesa com sede na capital argentina. O apartamento era um duplex antigo, gigantesco, na Recoleta.

Fiquei lembrando dos lugares do apê onde eu gostava de brincar. A sala sempre se transformava em um palco onde eu virava uma das cantoras das Spice Girls e cantava em alto e bom som todo o CD. Depois, lembrei-me dos meus esconderijos prediletos no esconde-esconde; aquele corredor comprido e escuro que dava para a área de serviço… Passados alguns bons minutos de devaneios tentei desenhar de cabeça a planta do apê. Dormi.

De manhã logo cedo, retomei o exercício e desta vez parti para o papel. Você já tentou rabiscar a planta de algum imóvel que morou quando era pequeno? Ou da casa dos seus avós? Que difícil!!

Primeiro que as noções de proporção dos espaços são outras. Tudo parece muito maior quando se é pequeno né? Aí os espaços não se encaixam nos desenhos… De repente um buraco na planta que não lembramos como era….

Por outro lado, tentar lembrar de portas, janelas, coisas que não reparamos quando somos pequenos, é um exercício muito difícil. Acessamos nossas memorias de fotos que vimos da época. Mas e aqueles espaços que não temos foto? Como a lavanderia? O lavabo? Esses eram sempre meus espaços preferidos para esconder. Por quê? Mais escuros, nunca acessados, “aqui não é espaço pra criança brincar, saia já!”…

Hoje adulta, fico remexendo nas memórias e analisando o que lembro e o que não lembro da época. Mais do que isso, porque alguns lugares, cheiros, luzes, foram tão marcantes para mim?
Solto-me a pesquisar sobre memória afetiva e infância. Qual o incrível poder dos espaços e sensações sobre nossas memórias daquela época?

E agora, com filhos, qual a qualidade do espaço que ofereço para eles terem essas memórias quando crescerem? Quais espaços nunca usamos e entramos, e se tornam lugares misteriosos nas suas memórias? Como posso propor novas brincadeiras levando em conta, justamente, o espaço que temos?

Enfim, devaneios sem respostas ou conclusões de uma mãe, arquiteta, corretora e insone sobre nossas casas e nossas memórias…

Compartilha comigo sua história?

 

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sobre o autor

Melanie GrailleCorretora Associada

Nascida em Barcelona, Melanie passou a infância pulando de cidade em cidade - Buenos Aires, Rio de Janeiro e Brasília - mas São Paulo foi a cidade que ela escolheu para viver depois de se formar em...

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