Mãe tem cheiro

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Por Ana Shaida

Quando ela tinha uns 27 e uma filha de 2 anos no colo, eu cheguei. Eu devia ter 1 ano e pouquinho quando meu pai (que era seu irmão) me entregou pra ela e pediu que cuidasse de mim até que ele resolvesse o que seria do casamento dele com a minha mãe.

Ela não recusaria um pedido como esse. Não ela, generosa que era.

Eu fui ficando, ficando e naturalmente me aclimatei ao meu novo ambiente.

Eu não lembro em que momento eu percebi que ela seria minha mãe para a vida toda.

Na verdade, acho que pra mim nunca foi diferente. Eu imitava minha irmã mais velha (que nasceu minha prima). Então, chamei ela de mãe desde o princípio e me inseri naquele contexto com uma destreza que me acompanha até hoje.

Dei trabalho. Era asmática e alérgica, fazia ela passar as noites em claro. Na época, ela tinha o reforço da minha vó e uma equipe de tias.

Mas eu tive várias fases: amorzinho, carinhosa, teimosa, emburrada, melhor aluna, presidente de turma, futura bailarina do teatro municipal, quero ser jogadora de basquete, a estranha, a calada, a vítima, olhar psicótico, a gótica, a triste, a revolts, “who is God?”, busca espiritual, namastê, amorzinho de novo, carinhosa elevada a máxima potência, vou pra São Paulo, ligações diárias, te amo sua fofinha, não se preocupa vai ficar tudo bem, vem morar comigo (não veio), deixa que eu resolvo, não te preocupa vamos passar por isso juntas.

Em todas as fases ela estava lá e o olhar dela era só amor e acolhimento. Era o olhar de mãe. Um olhar sensível que me entendia e parecia que sabia exatamente o que fazer para me ajudar. Às vezes eu acho que ela nem sabia, mas intuitivamente fazia qualquer coisa e funcionava.

Certa vez, eu me perdi em uma praia deserta e ela me encontrou. Eu devia ter uns 6 anos, mas juro que lembro! Fiquei emburrada por algum motivo bobo e fui me afastando propositalmente de todo mundo até não enxergar mais ninguém e perceber que eu tinha me metido numa fria. Eu só sentei e esperei. Sabia que ela sentiria minha falta e iria voltar. Ela voltou e ficamos juntas de novo.

Eu aprendi a olhar pra ela com um olhar de admiração.

Era mulher, jovem, veio sozinha pra cidade grande, arranjou trabalho, trouxe a família pra perto, casou, teve uma filha, adotou duas, acolheu parentes, separou, trabalhou muito (seu corpo era movido a trabalho), montou vários negócios, faliu umas 10 vezes, recomeçou tantas vezes quanto foram necessárias…

Sua vida nos ensinava a ter fé, força, a trabalhar, persistir, recomeçar, estender a mão, ter amor…

A gente nunca brigou, sei que parece estranho. Mas a gente sabia divergir com classe e admirar nossas diferenças que não eram poucas.

Ela sempre deu um jeito de estar por perto. A presença dela me remetia força e um colo macio.

Temos muitas histórias juntas…

Entre elas…

Quando eu resolvi retomar o contato com minha mãe biológica ela me olhou com admiração, talvez tenha escondido o medo e os ciúmes que possivelmente estaria sentindo. Eu teria que fazer isso sem ela. Tive medo. Ela pediu que eu encarasse, disse que era importante e que eu ficaria melhor depois disso. Fui encontrar minha mãe biológica, viajamos juntas. No início foi bem estranho, ela falava pelos cotovelos, parecia que pra ela não existia um tempo longo separando a gente. Eu fiquei meio travada. Passei a primeira noite toda em claro. E ainda tínhamos uma semana pela frente. Logo cedo ela levantou, organizou seus produtos de beleza e foi para o banheiro. Ufa (respirei)! Um bom tempo depois ela sai do banho toda emperiquitada, lambuzada de óleo e cheirosa que só!

Ah!!!!! E que cheiro! Reconheci de cara. Parecia um abraço. Me acalmou a alma e abriu meu coração pra ela. Dali pra frente começamos a construir nossa relação. Com calma.

Era cheiro de mãe. As duas usavam o mesmo Óleo de amêndoas Seve da Natura (coisa vintage). Mesmo de longe minha mãe dava um jeito de segurar na minha mão.

Fomos muito parceiras nessa vida. Me olho no espelho, reconheço muito dela em mim e gosto do que vejo.

Esse vai ser o primeiro dia das mães sem ela. Ela faleceu no dia 30 de abril de 2020 aos 67 anos vítima de corona vírus. Ainda vivo o luto. Mas vivo principalmente todo o amor que ela dedicou a mim. Sinto sua força e sua potência de vida resistindo até o fim. Às vezes sem pensar eu busco o nome Mãe no whatsapp pra mandar uma mensagem e saber como ela está. Não é uma negação da realidade. É o hábito de uma vida inteira. Uma hora eu me acostumo. Mas vou seguir com esse amor imenso dentro de mim e sentindo seu cheiro quando precisar.

Assim diz um ditado sufi:

_“Feliz é aquele que conhece o perfume do que perdeu.”

Já cheirou sua mãe hoje?

Ela tem cheiro de quê?

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sobre o autor

Ana ShaidaSócia-Proprietária

Graduada em Design de Interiores, pós-graduada em Design Industrial, especialista em Design de Serviços, Coach e Yogini em construção, Ana trilhou seu caminho profissional principalmente pela áre...

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