Céu azul

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por Karen Siqueira

Me lembro das muitas casas que a minha mãe morou na infância. Em uma delas, ela montou um quarto para mim.

Eu devia ter uns 8 ou 9 anos.

O quarto era pequeno, mas bem decoradinho, eu passava lá as férias e o final de semana.
Eu não morei com a minha mãe. Ela me teve muito cedo e eu fui criada pela minha vó e por uma tia, já falecida.
Por isso, não tenho muitas lembranças maternas de infância.
Quando adolescente, eu e a minha mãe discordávamos muito. Sempre houve entre nós uma cobrança de mudança de atitude, de ambos os lados. Minha mãe esperava uma coisa de mim. Eu esperava outra dela.
E olhando para trás, eu me questiono: por que criamos tantas expectativas nas relações ao nosso redor?
Por que as relações só são válidas se forem baseadas no comercial de margarina? Nenhuma família é assim. Mas demoramos um tempo pra entender.

Enquanto isso ela começava a sua longa batalha contra um inimigo interno: o câncer. Logo depois de eu ter perdido a tia que me criou da mesma doença.
Minha mãe encarou com tanta força que foi curada sem lesões e voltou a vida normal.
E aqui, cabe um adendo: se tem uma coisa que a minha mãe era, com certeza, é a alma da festa. O jeito que ela ria era contagiante. Meu apelido carinhoso para ela era Peter Pan. O menino que nunca cresceu. Era assim que eu me sentia com ela.
Por ter essa alma jovem, brincávamos que eu tinha 70 anos e ela 18. Quem me conhece e quem conheceu ela, sabe que é verdade.

Depois de alguns anos, o segundo tumor veio mais agressivo, precisou de cirurgias mais agressivas. Mas nada, nada tirava dela o brilho e a força de viver.
Nesse meio tempo, ela precisou se mudar para Campinas e junto com a mudança nasceu a vontade de voar.

Minha mãe fez de tudo um pouco na vida, de manicure à auxiliar de logística, mas quando começou a morar perto do aeroporto de Viracopos e via a todo instante os aviões levantando voo, surgiu nela a vontade de fazer parte daquilo de alguma forma.
Descobriu que podia fazer um curso da ANAC e que se passasse em uma prova bem difícil, poderia entrar no ramo da aviação.

Nesse momento, houve um ponto de ruptura, que eu não sei dizer exatamente qual foi, mas deixamos de discordar e de cobrar uma a outra.

Ela estudou, se esforçou, correu atrás e conseguiu passar na prova da ANAC com a melhor nota da sala.
Fiquei feliz por ela. Todos os dias eram fotos e mais fotos no meu WhatsApp da rotina dela no aeroporto.
Ela, que já era uma pessoa feliz, estava se sentindo realizada. Nessa época, eu tinha acabado de me mudar para a kitnet da 9 de julho. Estávamos compartilhando conquistas.
Mas a doença não deu descanso e poucos meses depois do novo emprego, descobrimos um novo tumor, em um lugar diferente.
Esse seria o momento de se sentir triste e desmotivado, certo? Errado!
Nessa época ela postou uma foto no Instagram comparando sua versão 3.0 da carequice com o tio It da família Adams.

Depois disso, ela deve ter passado por mais umas duas cirurgias e muitas sessões de quimioterapia.
No final do ano passado, decidimos passar o Natal juntas aqui em casa. Só eu, o Miro, meu padrasto e ela. Nosso Natal na micro família foi tão especial, não houve troca de presentes, nem árvore decorada, mas comemos, bebemos, rimos e eu descobri o verdadeiro significado dessa festa em família.
E no início da quarentena ela veio passar o final de semana em casa.

Hoje, olhando para trás eu vejo como esse final de semana teve nuances de despedida. Eu disse a ela que a admirava muito, por toda a força e vontade de viver e que se eu pudesse ser 1/3 do que ela era, já seria a mulher mais forte do mundo. Ela disse que se orgulhava da pessoa que eu tinha me tornado.

E de repente nada mais daquilo importava, as cobranças, o tempo afastadas, tudo tinha se dissipado e se transformado numa relação muito bonita. No dia das mães, eu recebi um presente. Consegui falar por vídeo com ela e dizer o quanto ela me fez feliz.
O quanto a sua força e alegria de viver mudou a minha vida e me fez entender como a nossa relação imperfeita era tão especial, tão única e, acima de tudo, real.
Eu não tenho palavras para expressar a gratidão que eu sinto de poder ter me aproximado dela e de ter como exemplo de vida alguém com tanta garra.

Ela partiu no dia 15/05, num dia lindo, um céu azul inexplicável. Pensei comigo: esse céu se preparou para te receber Patricia, só você para merecer um céu tão lindo desses.

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sobre o autor

Karen SiqueiraCorretora Associada

Nascida em São Caetano do Sul, fez faculdade de arquitetura e urbanismo. Morou em Santo André, cidade do ABC paulista com cara de interior durante 24 anos. Mesmo assim qualquer ocasião era boa de...

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