Meu Refúgio Urbano #32 O Anchieta inesperado

Hoje, estamos no Edifício Anchieta, na Avenida Paulista, e nós vamos conhecer o apartamento do Octavio.

Karen: Octa, obrigada por nos receber aqui!
Octavio: Imagina! Vocês demoraram para vir, inclusive. (risos)

K: E hoje invertemos as coisas, porque, geralmente, o Octavio mostra os apartamentos e hoje ele vai mostrar para a gente o dele.

O: Vai ser um prazer!

K: Mas me conta, o fato de ser o Anchieta, de ser um prédio assinado, isso influenciou na sua escolha?

O: Olha, a escolha desse apartamento especificamente foi baseada em uma série de outras coisas, e principalmente no inesperado. Eu não estava esperando um apartamento aqui, e desse tipo, então as coisas casaram muito bem quando eu vi, no apartamento, a possibilidade de fazer um projeto muito legal. O fato de ser no Anchieta, de ser assinado, pra gente faz um ponto a mais! (risos) “Acho que vai ser uma experiência muito legal morar no prédio”, e de fato é. É aquela coisa que a gente sempre fala da arquitetura e como ela faz diferença, na maneira como você percebe o lugar e o que ele faz por você. Lá embaixo, quando você chega, tem aqueles pilares grandes, aquele passeio e o jardim na esquina com a Angélica… todo dia é gostoso chegar em um lugar que tem beleza, e ela vai se mostrando de formas diferentes. Se você chega de manhã ou à noite, no final da tarde… é gostoso viver algo assim. Tem isso aqui, esse terraço que é uma delícia, e que quando tem os eventos grandes da Paulista a gente vem aqui pra ver…

K: E é uma vista 360º da região!

O: Muito, muito livre. Estamos em um pedaço alto da cidade; é um privilégio, embora o prédio não seja alto. É um prédio de dez andares, então o terraço é o 11º. Você estar em um lugar mais alto da cidade te dá essa visibilidade gigante… Perdizes, a Serra da Cantareira; você vê o Pacaembu, Vila Madalena… é sempre muito bom estar aqui; o salão de festas é um charme, também.

K: E você acha que essa é uma das características que você mais gosta no prédio?

O: Essas todas! O conjunto arquitetônico é muito bonito, também. Quando você está naquela praça, quando eu vou passear com a Catarina, minha cachorra, pra quem não sabe, (risos) você tem a visão dele como um todo, de frente, meio chapado, e é um conjunto muito bonito, embora ele não seja muito ornamentado; ele não é um Artacho; os irmãos Roberto eram um pouquinho mais comedidos, mas é um conjunto muito bonito com as cores, janelas, volumetria… eu lembro a primeira vez que eu subi a Consolação e vi a parte de trás dele, eu fiquei “cara o que é aquilo?”… nunca na minha vida imaginei que um dia eu ia morar nesse endereço, de verdade.

K: O mundo gira, as coisas vão acontecendo… quem vem de carro daquele lado também tem a vista dele desde o primeiro panorama.

O: De noite é bonito também, as luzes dos apartamentos acesas, mais o [bar] Riviera, que não desliga nunca (risos), então forma um conjunto superbonito.

K: Me conta uma coisa, Octa, quando você entrou aqui, tava tudo original, né?

O: Praticamente… quase nenhuma alteração de layout. Tinha um laminado no piso, que em algum momento foi colocado, mas era isso.

K: E isso é bem raro hoje em dia!

O: Bastante! E eu sou o terceiro proprietário dessa unidade, em um prédio entregue em 1948. A senhora que me vendeu, na verdade ela passou em vida a propriedade para os herdeiros, mas era ela quem morava aqui, e ela viveu mais de quarenta anos aqui. Foram pouquíssimos proprietários e eles mantiveram o apartamento muito bem. Se você olhasse, não tinha muito o que falar “nossa, está destruído”… a cozinha era uma perfeição, a fórmica dos armários era impecável, das gavetas não tinha um quebrado, nada; ela cuidava muito bem, mas o layout era totalmente original.

K: Totalmente diferente do que você tem aqui hoje, né?

O: Bastante diferente! No fim das contas, as alterações não foram tantas: foi a retirada da parede que separava a cozinha da sala; no portal que ia para a varanda tinha uma porta de madeira, que eu retirei, já que eu não posso tirar a janela do lado de fora, porque o prédio é tombado, então eu não poderia abrir a varanda novamente, que era um desejo que eu tinha. Troca da lavanderia de lugar e fechar um dos quartos para integrar com o outro e a mudança dos banheiros; o banheiro de apoio virou um box, e metade do banheiro…

K:Você falou em pouca mudança… (risos)

O: Mas é, banheiro, quarto e a lavanderia… só isso! (risos)

K: Mas o que eu achei legal é que você manteve muita coisa original.

O: Tudo o que foi possível, dentro dessas alterações de layout, a gente manteve. O piso é original, e estava embaixo de um laminado, super bem cuidado por conta disso. O piso da varanda também é original; eu não quis trocar, embora ele tenha manchas, tem a coisa da história… todas as portas são originais, os batentes e as portas não trocamos porque não havia necessidade. Enfim, não precisava e é legal ter um pouco da história.

K: Sem dúvida; é um prédio tão antigo, então esses detalhes contam a história, e eu acho lindo esse descascado das vigas e pilares que também contam da estrutura do prédio.

O: É, isso a gente já sabia que existia, porque o arquiteto que fez esse projeto é marido da Karen (risos) e ele já tinha feito outro projeto nesse mesmo alinhamento aqui do prédio, então ele sabia dessa peça estrutural aqui, e aí trouxe a possibilidade de descascar e deixar ela exposta, e é muito linda, embora ela seja monstruosa, né (risos)? Mas cabe muito bem nesse espaço porque tem um pé-direito superalto e não “pesa”, fica muito bonito e acabou compondo muito bem com as outras coisas. É aquela brincadeira de quando a gente faz projeto: você tem uma peça de concreto super marcante, aí você traz o concreto aqui, joga o concreto lá e vai pontuando em outros lugares pra poder criar essa unidade para criar essa linguagem no projeto, que foi uma coisa bem a seis mãos (risos). Eu levei algumas referências, que eram bem escandinavas, bem preto e branco. Eu tinha uma coisa que eu queria as portas pretas, mas aí você chega com essas maluquices e o arquiteto te traz para algo mais adequado… “não vamos fazer as portas, vamos fazer o batente e pintar as portas de branco”, e aí vai colocando as outras coisas e criando os espaços; no fim das contas, funciona se você tem essa relação boa com o seu arquiteto e eles trazem boas ideias, referências muito legais e soluções que respeitam o que você quer, mas também te provocam… a história da pedra de calçada, da pedra natural no banheiro! (risos) Eu trouxe a ideia de colocar a pedra só no piso, porque eu queria a sensação de pisar em uma pedra natural na hora de tomar banho, aí o Almiro [arquiteto] falou “vamos rebater, levar para as paredes também.” e eu fiquei “cara… vai virar uma caverna” (risos) e não, ficou incrível!

K: É porque é super iluminado né?

O: Tem aquelas mega janelas e tal, e o banheiro ficou maravilhoso! É uma daquelas coisas que as pessoas mais se encantam.

K: É um banheiro muito diferente, né? E eu acho que esse apartamento tem a sua cara!

O: Fico feliz em saber disso! (risos) Porque é isso, você vai trazendo um pouco das suas referências e muitas outras coisas.

K: Pergunta difícil… até porque aqui tem muitos ambientes legais, mas qual é o seu favorito?

O: Poxa vida (risos)! É difícil, mas é fácil, porque é o lugar onde eu fico mais tempo e você sabe que eu sou uma pessoa de perspectivas; eu gosto de ficar olhando e prestando atenção, descobrindo perspectivas, e aqui, na sala, nesse conjuntão, tem um monte; eu adoro ficar. Principalmente no final de tarde, a Catarina fica deitada aqui, eu fico lendo; é gostoso sentar naquelas duas cadeiras da varanda, e aí você olha para esse lado… de manhã eu sento naquele banco mais alto do balcão da cozinha, que a luz da manhã na janela é maravilhosa. Então esse é um ambiente que oferece um monte de lugares gostosos para momentos diferentes do dia. No fim das contas, a sala é o meu ambiente favorito.

K: Esse detalhe do cobogó também, né?

O: Isso foi genial, aqui tinha um armário daquele esquema que era como se fosse uma estante para o lado de cá, em apoio para a sala de jantar, e do lado de lá era um roupeiro, era “metade metade”, de madeira; não tinha parede aqui, e quando a gente tirou “ah, vamos colocar um elemento vazado”; a ideia de fazer isso para dar um pouco de luz e dar esse efeito também. De noite, quando acende a luz do corredor, fica maravilhoso aqui também.

K: O apartamento tem vários momentos do dia, né?
O: Do dia e do ano! Ele muda muito de luz, dependendo da época do ano.

K: Super iluminado. E quando você entra, sai do hall escuro e entra no apartamento, claro…

O: É, dá um choque! (risos) É muito bonito nesse sentido também.

K: E outra pergunta difícil: qual é a sua peça favorita?

O: Essa é realmente difícil… porque eu poderia contar a história de cada um desses quadros na parede; tudo tem história, tudo tem alguma relação com um momento da minha vida e é por isso que eles estão comigo, e tem coisas que eu carrego há muito tempo; tem um quadro que está aqui no corredor que é um pôster de uma exposição de uma artista plástica lá de Londrina, que é amiga da minha tia, e assinou o pôster. Isso eu estava na faculdade, e eu tenho uma relação com ele de história, ele vive comigo… de Londrina, Curitiba, ele foi pra África, voltou, foi para Joinville, voltou; todas as casas… e está aqui. E te contei a história de um! (risos) Tem um monte de outras coisas, mas eu vou colocar uma peça de família, que é um troféu de futebol que o meu avô ganhou com os irmãos dele; eles formavam um time de futebol, em 1922. Está comigo por algum motivo; pela gentileza da minha tia de deixar essa peça comigo; eu chamo ele de “dono do mundo”; uma brincadeira, e ele está comigo há muito tempo, desde quando eu era criança, pré-adolescente, e é uma peça de família que eu acho linda, e é isso, história, tempo e tudo mais. Ele está na estante ali, da sala de TV e é uma das mais significativas que eu tenho aqui em casa.

K: Mas eu posso falar da sua relação com os cavalos? Porque tem vários aqui no apartamento! (risos)

O: Pode falar da minha relação com os cavalos (risos) e eu gosto muito de cavalos, e compro coisas, peças que são de cavalo; as pessoas sabem que eu gosto de cavalos e me dão coisas de cavalo… você vai criando uma coleção meio que sem querer. O último que eu ganhei foi um pequenininho que foi presente do Matteo, do nada, assim “passei num antiquário e vi esse cavalo; lembrei de você!” (risos). É meio isso, e tem quadros de cavalo, cavalo de tudo quanto é jeito.

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O Octavio nem imaginava que iria encontrar seu refúgio nesse icônico próximo à Avenida Paulista; hoje, o apartamento abraça toda a sua história e identidade!

Confira o vídeo da entrevista, com imagens exclusivas, em nosso canal no YouTube!

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